Indiferença

Num dos contos d'As Mil e Uma Noites "O Pescador e o
Génio", (vide O Pescador e a Sua
Alma de Oscar Wilde), exibe-se, sob a forma de conto de fadas, o confronto de
uma pessoa vulgar com um gigante do mundo espiritual mas amarrado ao plano da
Terra. Um infeliz pescador depois de três vezes lançar a rede à água apenas
recolhe detritos mas, decidindo-se por uma quarta tentativa, recolhe um jarro
de cobre com a sua tampa bem fixa. Quando o abriu emergiu do interior uma enorme
nuvem a partir da qual se materializou um génio que imediatamente o ameaçou de
morte. O pescador consegue, no meio de um enorme susto, com muita argúcia não
exibir o medo e em poucos instantes adquire uma calma que lhe confere o estado
de indiferença... exteriorizando-se num estilo mordaz, encenado pelo instinto conferido pelo estado de alma
que abordamos, o pescador provoca o génio pondo em causa o seu poder pois que
sendo ele tão alto nunca conseguiria ter saído dum jarro tão pequeno, quanto
mais permanecer nele. O génio, no seu orgulho, retorna ao interior do jarro
para lho demonstrar enquanto o pescador rapidamente coloca a tampa e o devolve
ao mar.
Noutras culturas um ser maléfico transforma-se num
monstro enorme e feroz que ameaça devorar o herói, o qual, munido da sua
indiferença que lhe confere a calma o enfrenta pacificamente afirmando para o
monstro que, com tanto poder, deve ser fácil para um tal espírito
transformar-se num pequeno animal: um rato ou um pássaro. A vaidade do espírito
agudiza-se e passa à demonstração transformando-se num animal ainda mais
minúsculo que o herói rapidamente destrói.
O documento de Bruno
Bettelheim Psicanálise dos Contos de
Fadas corrobora na íntegra com o estado da Indiferença sem o qual o
paciente nunca se curaria dos seus estados emocionais negativos. Perante o
conto de fadas proposto pelo médico tradicional hindu o paciente, ao lê-lo,
ver-se-ia confrontado pela história não fora o facto de ela não abordar o mundo
como ele é – assumido por norma. Porque a história não se encontra
dentro dos padrões da norma e porque
ultrapassa o vulgar quotidiano não tendo o quotidiano cabimento nele, o
paciente apenas se embrenha na magnífica contemplação de um ilusório aonde ele
se identifica com um ou mais personagens…
Por enquanto possuímos um paciente ainda não integrado na
história mas já em vias de o fazer. Esta não é uma fase de indiferença no
sentido em que a queremos afirmar nem, tão pouco, um estado de apatia – tal só
sucederia se a história o influenciasse instantaneamente ao ponto do
estarrecimento… do mesmo modo, o conto poderia induzi-lo a um mais ou menos
elevado grau de agressividade: estes dois estados negativos aqui expressos
podem-se observar em Psicodramas de grupo.
O conto escolhido pelo
médico tradicional hindu é tão mais alheio à realidade quão mais profundo é o caso de perturbação do paciente;
isto é: há que alheá-lo temporariamente da realidade para que consiga penetrar
só e somente na história, dar-lhe tempo para no imaginário se identificar
dentro dela e, por fim, integrado no conto se veja face a face com os elementos – os outros personagens –, que
não são mais do que os materiais das suas perturbações.
Porque nestes contos o herói possui sempre uma forma estratégica de sair das dificuldades, o paciente entra – foi entrando ao longo da sistemática releitura do conto –, na profunda indiferença e isto permite-lhe contemplar a solução do seu problema.
A tão chamada integração de
um ser na vida e na sociedade, tal como no isolamento, advém sempre da
personagem que esse ser adopta – Construção
da Personagem (obra de Stanislawski). Agora, o fundamental é saber se esse
ser adoptou o personagem mais ideal para o que enfrenta e disso, dependeu e
depende, toda a conjuntura familiar e do âmbito social em que foi criado.
« J'ajouterai (le dire ne console pas
de ce qui reste à dire)... »

Ah! Ser indiferente!
É do alto do poder da sua indiferença
Que os chefes dos chefes dominam o mundo.
Ser alheio até a si mesmo!
É do alto do sentir desse alheamento
Que os mestres dos santos dominam o mundo.
Ser esquecido de que se existe!
É do alto do pensar desse esquecer
Que os deuses dos deuses dominam o mundo.
(Não ouvi o que dizias...
ouvi só a musica, e nem a essa ouvi...
Tocavas e falavas ao mesmo tempo?
Sim, creio que tocavas e falavas ao mesmo
tempo...
Com quem?
Com alguém em quem tudo acabava no dormir do
mundo...)
Álvaro de
Campos (12-1-1935) - Livro de Versos.
Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas
de Teresa Rita Lopes.) Lisboa; Edit.
Estampa, 1993

E, aprofundando a ideia de
indiferença, segundo o mesmo autor português na sua Estética da Indiferença: «Perante
cada coisa o que o sonhador deve procurar sentir é a nítida indiferença que
ela, no que coisa, lhe causa.
Saber, com um imediato instinto, abstrair de cada objecto ou
acontecimento o que ele pode ter de sonhável, deixando morto no Mundo Exterior
tudo quanto ele tem de real – eis o que o sábio deve procurar realizar em si
próprio.»
Livro do Desassossego por
Bernardo Soares. Vol. II. Fernando Pessoa. Lisboa; Edit. Ática, 1982
O acto (ou a prática) da
indiferença não consiste no alheamento das coisas ao ponto de deixar um ser
abandonado à inactividade num canto qualquer. Consiste, isso sim, num desligar de determinados aspectos da
actividade mental com o fim estratégico de - eliminando tudo o que a nível dos pensamentos-sentimentos
possa contribuir para um passo errado e, acima de tudo, para um desastre -, com
calma e serenidade enfrentar a situação. Os sistemas marciais de auto-defesa
assentam neste princípio o qual é sine
qua non para o ser que as pratica... quer o lutador ganhe ou perca, a sua
paz de espírito não só tem que permanecer como prosseguir até ao fim da sua
vida, isto é, perante o desafio não houve ânsia ou medo do confronto, durante a
mesma a indiferença permitiu movimentos livres e coerentes respondidos pela
ausência do sentimento, concedendo no final a banalização total do espírito de
vitória ou de derrota e, portanto, o vazio total perante qualquer sentimento
para sempre apenas permanecendo os actos que a luta implicou como lições a não
esquecer.
«Abandonar não quer dizer esquecer, mas
tornar sempre presente, sem amarras nem laços.
É um acto de libertação. Afrouxam-se os
laços e o mundo que nos rodeia deixa de estar deformado pelas nossas obsessões,
pelos nossos fantasmas.
Torna-se de novo livre. »
In Preceitos de Vida - 1ª edição, 1999 -, Edit. Pergaminho, Dugpa Rimpoché, pág.146
Abordarmos o termo e o acto
da estratégia implica o esclarecer de
alguns aspectos afins tal como a omnipresença da indiferença nesta
matéria.
Há uma tendência tão
recheada de ignorância como de oportunismo ao classificar-se algo como mentira
recaindo, sob forma fortemente condenatória, sobre o acusado de mentiroso.
Acrescenta-se imbecilmente a existência
da mentira piedosa a qual, por ser tão descabida que se contornos possui são os
do interesse do tal mentiroso piedoso o qual não é mais do que um vil vigarista
exibindo todo um cenário de gestualidades e afirmações cheias de razões altruístas mas cujo corpo destas
não tem outro conteúdo se não a do sacana nato.
Que a mentira é um facto,
não restam dúvidas; que a mentira piedosa
é um dolo ao ponto de não existir, disso temos conhecimento; mas… e da
estratégia, onde é que ela se encaixa aqui?
Sim, porque é aqui que ela possui o seu cabimento!
Abordar este tema implica «Il faut enfin parler dangereusement et
dangereusement garder le silence, tout en le rompant.» e ao se afirmar que
«Na cruz da religião nem o gosto tem uso
porque não há indiferença para o provar,...» - como os outros textos da Foziber,
aparentemente soltos mas que ao longo
das nossas páginas exibem o seu desenvolvimento porque essa é a meta -, é porque sabemos a importância vital
de frisar a prática da indiferença,
implicante e implicadora da sagacidade, da estratégia, da humanidade, do não
rancor, do saber viver no glamor
estando interiormente desapegados dele... enfim, de toda uma forma (modelo) de
vida cuja base é que nunca mais «ao ser»
caiba «as migalhas dos medos, de toda
aquela sujeição estúpida...»
A estratégia assenta no
acto de mentir tal como no acto da indiferença porque
«A coragem pede uma resposta imediata
e não deixa nenhum lugar para a reflexão,
para a hesitação.
Antes é que teria sido preciso reflectir.
Chega um momento em que é preciso agir e
abandonar-se
com toda a confiança.»
Ibid. Dugpa Rimpoché - pág. 131
Um acto estratégico tem
como premissa induzir o outro no logro que o estratega lhe prepara
necessitando, o estratega, da indiferença suficiente para que o outro em nada
desconfie do que lhe está a ser preparado. Se ambos estiverem imbuídos dessa
indiferença ganhe quem ganhe ou perca quem perder, a ética é mantida permitindo
o retirar de grandes lições como acima focámos, no que concerne às artes
marciais.
«Pois se, com indiferença, fazeis pão, o vosso pão será amargo e saciará
apenas metade da fome do homem. E se a contragosto, esmagardes as uvas...»
Khalil Gibran encontra-se a falar baixo a negatividade do ser humano perante o
suor dos afazeres da vida mas e acima de tudo – mais do que o próprio Khalil
Gibran -, nota-se ser um floreado do tradutor português para não repetir
sucessivamente «a contragosto…»,
estilo aparentemente dentro do espírito da prosa portuguesa mas totalmente fora
da poética e, principalmente, dentro da prosa poética de Khalil Gibran ou de
qualquer outro autor mesmo que português.
Claro que o acto da
indiferença, o acto da estratégia, como a maioria – senão a totalidade -, dos
actos possuem o seu aspecto negativo… o fortemente negativo, o negativo real e
único. O palco das nossas actuações é esta Terra aonde o bem e o mal coexistem,
tal como o negativo e o positivo… mas como não somos cartesianos temos em
consideração também o neutro e é nesta base que a Indiferença tem o seu lugar.
«Se com a tua indiferença souberes enfrentar aquele que te pretende
tirar a capa, dá-lhe também a túnica; se te derem uma lambada na face direita
oferece-lhe a da esquerda; se te obrigarem a andar dois quilómetros, avança
mais dois com ele. Cuida-te de que ele queira caminhar mais esses dois
quilómetros porque, se não, levas mais uma trancada, tira-te todo o resto que
há em ti e depois ficas abandonado à
beira duma estrada à mercê de um bom
samaritano que te apareça.»
In Diário de Yhonathan,
Páscoa dois mil
«Não é só nas acções que a consciência passa
gradualmente
da novidade ao costume
e dos termos à indiferença »
Machado de Assis, Quincas
Borba, cap. 163, pág. 361